World Fashion edição 161

EM MINAS O território brasileiro há muito tempo tem se mostrado como solo fértil para ideias e desenvolvimen- tos – seja no âmbito da indústria, seja no campo da produção que envolve o saber artesanal. Essa produção, aliás, cresce de forma notável, considerando que a tec- nologia avança, mas o caráter au- toral das criações é requisito. Na cidade de Itabira, em Minas Ge- rais, uma ação tem levado a ex- pertise artesanal de mulheres ta- lentosas às passarelas do SPFW. Inaugurado em 2009, o Instituto Tecendo Itabira é uma idealização do estilista e empreendedor Ronal- do Silvestre. Engajado com a cria- ção e com a causa social, Silves- tre vê a área da moda como um arranjo produtivo, que pode abrir para as cidades a possibilidade de geração de emprego e de renda. Para ele, o Instituto continua em processo de construção e de de- senvolvimento. “ Mostramos, ali- nhados com o movimento de sustentabilidade, que é possível utilizar e transformar tecidos des- cartados em artigos desejados, capacitando costureiras e borda- deiras que passam a captar a es- sência de cada tecido ”, argumenta. Os tecidos recicláveis que che- gam até as chamadas obreiras do instituto passam por processo de transformação. “ Cerca de 80% do material enviado é aproveitado na nossa produção, o que é um per- centual muito bom ”, assinala o de- signer, acrescentando que são vá- rias as técnicas utilizadas para manipular o material. “ Busco essas técnicas em revistas e livros data- dos dos anos 1960 e 1970 ”, comen- ta, acrescentando que essa práti- ca é também um resgate cultural. “ Muitas dessas técnicas estavam quase esquecidas ”, destaca. O viés produzido pelas artesãs dá origem a artigos compactos ou a bordados elaborados de forma or- gânica sobre o tule, por exemplo. “ A cada lançamento mostramos que evoluímos ”, conta ele, comple- mentando que as artesãs são for- madas em muitas técnicas usadas nos ateliês de alta costura. O trabalho chega a público por meio de apresentações empassarelas na- cionais, como Dragão Fashion, no Ceará, e SPFW. “ Ainda não temos ver- ba para divulgação de tudo o que é feito pelo Tecendo Itabira. Amídia se dá de forma espontânea ”. Além da questão financeira, o tra- balho artesanal ainda é visto pela maioria como algo de menor va- lor. O desafio, portanto, é mostrar todo o valor que o saber autoral representa. “ É tarefa constante destacar a importância desse tipo de criação ”, frisa, enfatizando que jovens criadores entendem e inte- ressam-se pela proposta. Da mesma forma, o investimen- to em tempo, trabalho e formação que Ronaldo Silvestre faz no Tecen- do Itabira traz junto uma mudan- ça de paradigma dentro da própria comunidade de artesãs. “ As mais antigas e experientes começam a entender o novo posicionamen- to do trabalho que realizam”, co- menta, observando que essa mu- dança se deu a partir do desfile de estreia da mineira Fabiana Milazzo no SPFW N43, em 2017, composto por roupas bordadas pelo Tecendo Itabira. “Fomos referência para a marca ”, assinala Silvestre. Trata-se de uma proposta local que tem características e amplitu- de global. “ Não estamos nos gran- des centros da moda, mas mostra- mos que fazemos um trabalho que dialoga com os grandes centros, podendo estar sendo desenvolvi- do em qualquer cidade brasileira ”. E Ronaldo Silvestre finaliza : “ Quere- mos com ele atender todas as de- mandas que o setor de vestuário tem apresentado nos últimos anos ”. Fotos: Divulgação 16 161

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