World Fashion edição 160

9 160 Phd . Sylvia Demetresco é doutora emComunicação e Semiótica pela PUC/SP, compós-doutorado emSemiótica no Instituto Universitário da França, emParis. Professora de Visual Merchandising na Ecole Supérieure de Visual Merchandising, em Vevey, na Suíça. É autora de livros sobre vitrinas, entre os quais: Vitrina Construção de Encenações (Educ/Senac), Vitrinas Entre-Vistas: Merchandising Visual (Senac), Vitrinas E Exposições: Arte E Técnica Do Visual Merchandising (Editora Érica, 2014) e Vitrinas: Arte, História e Consumo de São Paulo (Via das Artes, 2014). sylvia@vitrina.com.br | www.vitrina.com.br V I T R I N A HERANÇA A Hermès foi fundada, em1837, cujo métier era fabricar arreios e selas para carruagens e cavaleiros e por isso sua expertise no tratamento do couro. Com esta exposição, tornou- -se possível ver os tipos de peles uti- lizadas, as texturas, os odores, as co- res e os tratamentos mais variados. Além de serem escolhidos a dedo, originários de vários países e de criações de animais especiais, os couros ainda são banhados, massa- geados, secados, tingidos e, em al- guns casos, batidos com pedras até ficarem como que envernizados. Há um respeito pela matéria-prima, que se tornará uma bolsa ou uma sela. Termos deste universo surgem no decorrer da exposição. Quando a pele de couro está pronta para ser transformada numa bolsa, di- z-se em francês, il donne la main , isto é, o couro “dá a mão”. Ou ain- da tem toque de vela, a mão firme, e o savoir-faire artesanal herdado das técnicas de selaria, tais como o ponto sellier ou a etapa astiqua- ge . Todos são processos de finali- zação das peles de couro, herança do fundador Thierry Hermès que se perpetua. O mais importante é que cada elemento deve envelhecer bem e todos os produtos resgatam de algummodo delicadas peças do mundo dos arreios e da selaria. O ESPAÇO Eram dez salas que formaram a ex- posição commodelos inovadores de bolsas e de selas para cada época, dedicados a desejos de clientes tal- vez sofisticados ou excêntricos que levam a Hermès a inovar sempre. Na primeira sala, toda branca, es- tavam expostos os couros como no ateliê de origem. Era possível apre- ciá-los e até tocá-los: tato e odor eram as emoções que nos moviam. A seguir, numa sala com uma mesa imensa, era possível entender como se realiza o corte de uma pele para se obter todas as peças de uma bolsa. Couros e bolsas pendura- das por ganchos, mostravam como elas ficamnas mesas de cada arte- são, no ateliê de produção. Uma pequena rampa levava o visi- tante ao universo das antigas ma- las, todo pintado em laranja. Cada bolsa, mala, carteira e até um vo- lante nos contavam a história de produção do objeto e a de seu pro- prietário. A cor revestia cada pare- de, num ambiente velado e as cai- xas vitrinas explodiam de luz. Na quarta saleta, passando por uma rede de fios de couro, adentra- va-se no espaço revestido de papel plissado na cor creme e iluminado por trás. Pequenas vitrinas surgiam com bolsas de pedidos dos mais extravagantes: mini bolsas bran- cas, uma bolsa de couro verde para carregar uma maçã, um carrinho negro para perfumes, uma bolsa de cavalinho, uma mala de ferramen- tas de couro natural, uma luva de beisebol, uma bolsa vermelha em forma de tambor e outros modelos a pedido de clientes especiais. O maior elemento era uma sela com asas nos tons alaranjados, quase voando no fundo do espaço, que era a temática da sala “quan- do sonhos se tornam realidade”! Outro ambiente, com paredes em tom de azul arroxeado, contava a história das bolsas. Ao fundo, uma bolsa iluminada por uma áurea azulada dava a ideia de como so- nhos se tornam realidade, unindo simplicidade e sofisticação. ÍCONE DACENOGRAFIA Sexta sala, um desafio! Boiando sobre um lago quadrado escuro o encontro com Zouzou, o rinoceron- te em couro branco, criado por Lei- la Menchouri, para uma vitrina em 1978, que acabou virando a masco- te desta exposição. Ele foi reencon- trado na década de 90, por Dumas, num antiquário em Nova Iorque. Dali um corredor todo laranja for- te, em que a luz transformava tudo em fundo e formas que se organi- zavam de modo setorizado, algu- mas criações extraordinárias, bike, animais e claro bolsas, malas e ma- letas mostravam o mundo excep- cional de possibilidades da marca. Oitava sala, o mundo das competi- ções equestres. Num espaço mara- vilhosamente cenográfico, com areia no chão, obstáculos e barreiras para salto a cavalo, sobre um céu azul despontavam as botas e as selas de modo a ofuscar o olhar. Selas e sele- tas, bolsas de cavaleiros e cavalari- ços, sacolas para os apetrechos de montaria, chicotes e capacetes se entremeiamno ambiente azulado. MUNDOHERMÈS A maior parte dos objetos expos- tos fazem parte do Museu Émile Hermès, que está instalado no últi- mo andar no prédio da Rue du Fau- bourg-Saint Honoré, em Paris. E mais outras peças que ficam guar- dadas em Pantin, pertinho de Paris. Na loja da Hermès, dentro do Igua- temi, estavam numa vitrina com enormes flamingos em couro rosa, expostas duas bolsas do artista plástico Felipe Jardim, uma rein- terpretação de um modelo de 1972. A relação da Hermès com o nosso país começou em 1822 com uma mala para guardar joias e prata- ria que pertenceu a Teresa Cris- tina Maria (1822-1889), mulher de D. Pedro II, a imperatriz do Brasil. Seguiu em 1922, quando os irmãos Hermès vieram para a Exposição Internacional do Centenário da Independência, no Rio, e agora a história teve continuidade ao ex- por os objetos históricos. Rinoceronte em couro branco, criado por Leila Menchouri, para uma vitrina em 1978 Peles selecionadas, penduradas por ganchos, mostravam como a matéria-prima fica disposta no ateliê de produção

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